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O Carnaval e suas máscaras

Costumo dizer que sou filha do Carnaval, mas porque nasci nesta época. Nasci e cresci ouvindo folia e posso até dizer que isso contribuiu para um determinismo do meu próprio ritmo de viver. Não sei sambar. Sou dura como um pedaço de pau quando me chamam para a pista de dança. Decepciono qualquer gringo que me impõe o estereótipo de brasileira. Mas festas e danças arrancam de mim algo de necessário para seguir vivendo.

Independente de carnavalizar por um ou cinco dias, estou lá, onde houver baticuns. Mas além de qualquer espécie de animação e ajuntamento amigo e humano, observar as manifestações nestes dias de folguedo é curioso, já que é possível imaginar que existam pessoas cuja expectativa para esta semana atravessa os doze meses só para realizar-se na pele de outro. A fantasia é uma outra pele, os sorrisos são únicos e, não importa o que seja, viver outra vida ao menos um dia pode ser libertador. De qualquer maneira, para os mais amenos não há escapatória: vive-se, mesmo assim, uma fantasia ficcional. Ninguém sobrevive sem máscara.

Vestem-se personagens, então, a fim de viver cada um a sua história escrita pelas ruas e blocos do centro da cidade. Cobrem-se de flores, capas, luvas, confetes, serpentinas, brilhos e suor – mas eis que me vem a vontade de apenas ali estar. Talvez a indisposição para escolher uma fantasia venha justamente da ideia de que meu carnaval acontece na caneta e no papel, no teclado e na tela em branco a ser preenchida de mim mesma. Do samba no pé que não tenho, insisto que o tenho nas pontas dos dedos e está tudo resolvido.

Um rebento que vinga em plena festa pagã ganha sintonia até com os ventos quando chega seu dia. Já disse que não sei dançar e nem gosto do verão, mas reconheço que é numa terça carnavalesca como esta em que escrevo que a energia se renova, os ânimos se agitam e a diversão tem que ser real. Pular é uma opção, assim como é viver. Qualquer pessoa já teve sua quarta-feira de cinzas, seja em fevereiro ou em setembro. As plumas murcham mesmo e aprendemos a lidar com isso. Tudo parece ser um ensaio para virar avenida em breve. A liberdade é a premissa de tudo, manifestada em qualquer esquina de tambores e tamborins.

É dia também de esquecer os males da própria e da alheia vida, se temos esse direito. Carnaval é um tipo de Literatura: precisa-se dele para amenizar todo o resto ruim que nos acomete. O que importa mesmo é a lembrança que fica para ser resgatada a cada mês que se seguir. Se não for isso, finge-se. Ao menos hoje, é permitido.

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Águas do tempo

Um ano que vai desbotando-se com o passar dos dias encontra obstáculo por um ou outro acontecimento, como um tronco à frente da corrente d’água, mas, ainda assim, a água vai-se escorrendo pelos lados, abaixo, acima, pois é a lei das correntezas. Seu curso que segue rápido, assim é o natural das rotinas, e quase sempre o que vem após é a água em precipício, um dia que cai e logo outro, e outro, empilhados de acúmulo e de cúmulos da arte de viver, que é não viver.

O começo nunca é o começar de fato, uma vez que existe a vontade de espreguiçamento, e lá se foram janeiro e fevereiro, ou até março, a depender das datas festivas. Dada a partida, espera-se qualquer feriado que salve a pátria do cansaço que ainda está por vir, o que justifica o adiamento de algumas tarefas deveras importantes para a sorte andar. E não é com a chegada de um feriado altamente aproveitável que vai saciar o outro desejo, o de trabalhar. Trabalhemos, sim, mas visando o próximo feriado, porque a exaustão é grande para dar continuidade ao ano. Está pesado demais e, de acordo com a folhinha, não há feriados no segundo semestre, o que nos obriga a aproveitar todo o primeiro para, depois, dar o gás.

Mas eis que chega julho e, nessa correnteza em que não bastam ondulações e pequenas ondas, as estações fazem as folhas nascerem e caírem como nunca, o sol aparece e detona o espírito, a chuva precipita e precipita-nos a ficarmos em casa por medo de alagar as ruas ou por hábito. Passam as horas voando, correndo, nadando na face de quem vê um filme de terror se aproximar pensando que acabara de fazer aniversário e lá está a data a repetir-se novamente. E o mundo inteiro alerta-se de guerras e atentados. De metas inatingidas. De incêndios em mares d’água disfarçado. De estatísticas imóveis. De catástrofes no céu. De lama no mar. De descontinuações que impressionam.

Não basta chegar a setembro e anunciar sobressaltos. Nem mesmo o mês mais contemporizado pode abraçar um ano inteiro e protelar seu fim. A água em corredeira pode até ser detida, mas demandaria… tempo. O tempo que depende dele mesmo. E não mais do que isso, é do que dependemos – de nós mesmos. Chegar a dezembro endividado com o próprio tempo é maquinal, já que haverá de ter outro ano, disso há toda certeza. Se houve um ano que precisa ser inundado de uma vez, que venha logo outro para irrigar as ideias igualmente.

Quando se aproxima a festa do novo, está tudo em ruínas. Arruinado, o velho sai dando espaços a cada minuto para retardar ainda mais as piores sensações. Estragos sem precedentes nas relações econômicas, políticas, amorosas, culturais, históricas. Foi difícil, de fato. Façam-se planos para deter arrependimentos e motivar as marés cheias. Se nem tudo foi ruim, a memória pode ser aliada, pois quanto já foi inimiga? Porém, a percepção de um afogamento a qualquer custo diante de mais trezentos e sessenta e cinco dias esfria a espinha e o estômago, porque sempre se sabe que há mais desses dias pela frente, e é dessa maneira que tudo segue. Assim é que construções são demolidas e não monumentadas, porque não é necessário lembrar de todo passado, quiçá é preciso ficar atrelado a ele se houve dias em que a impressão de arrasamentos preencheu seu sentido.  Mas também se sabe que o desgaste pode ruir qualquer estrutura e talvez fosse melhor que tudo se tornasse devastação e não restauração, para assim dar início ao tempo límpido, inodoro, incolor e insípido.

 

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Os donos de sonhos

Na semana passada, ouvi de duas pessoas que minhas crônicas são sensíveis e minhas palavras sutis. Nesta, não há como investir sutileza. É impossível verbalizar com esmero para dizer sobre a morte de Adílio nos trilhos de um trem no Rio de Janeiro. Mais ainda quando se sabe que, após ser atropelado, outro trem foi autorizado a passar por cima do vendedor ambulante. Adílio poderia já estar morto e, portanto, era só um corpo. Tornara-se estatística. A empresa de metrô temia a retenção dos trens em pleno final de tarde. Não valia a pena socorrer o vendedor.

Lembrei-me, então, de um caso sobre o qual já escrevi em que outro ser invisível dormia no terminal de ônibus. Ele atrapalhava o crescimento da fila e sua forma natural, mas como a tudo nos adaptamos, na fila reta criava-se uma curva, uma barriga de vermes inclinada para a ignorância, que se desviava do inconveniente. O indigente passou a ser obstáculo, como um quebra-molas vivo; pisar já é algo muito atroz, então, passemos por cima. Escutei duas senhoras conversando sobre a irresponsabilidade da empresa de ônibus, que “nos faz pagar tão caro pelos seus serviços e não toma qualquer atitude a esse respeito”, dificultando o andamento da fila, tornando o trânsito embarreirado. Aquilo que a empresa de metrô antecipou.

Quem se importa? A metáfora da cegueira generalizada ensaiada pelo escritor português José Saramago abre a ferida das nossas culpas, porque, se não estamos todos cegos, estamos todos surdos, como já cantavam Erasmo e Roberto, em 1971. Queremos sempre abrir caminho para continuar o percurso feito às cegas. Se houver qualquer paralelepípedo atrapalhando-nos, somos capazes de enterrá-lo com uma única pisada. Minutos antes de enterrá-lo por completo, julgamo-lo como estranho, estragado, imperfeito, doente, é inseto repugnante feito Gregor Samsa, que se tranca para o mundo, porque tudo isso é ser bicho, é desumano.

E quem se lembra de Rafael, cujo sonho era ser estilista e, junto com esse, vários outros poderiam fazer parte de uma vida inteira sonhada? Ser um grande criador de cortes, levar sua costura aos grandes modelos, ganhar reconhecimento internacional. O dono desses sonhos surpreendeu-se, um dia, com pauladas e pedradas: aos catorze anos, foi condenado por sua orientação sexual e, agora, é só mais um número junto a todos os outros que também já sofreram.

Tudo isso me faz recordar Fernando Tatagiba, que escrevia literatura para protestar contra essas e outras tantas barbaridades da vida cotidiana. Como uma agulha que entra na pele e não se retira, seus escritos vão do mais banal dia-a-dia para o caos que nele se esconde. E dele surgem personagens instáveis que estão do outro lado do muro, e ora se deixam compreender por isso, ora se confundem. Confundem-se também com os limites entre morte e vida, ora julgando estarem vivos, ora descobrindo a própria morte. Seres um tanto desumanos para existirem, mas aí estão invisíveis para nós. Pois é disso que somos feitos – se somos visíveis, vivemos; se invisíveis, estamos mortos.

Peço desculpas a Adílio, Rafael, Saulo, Jhony, Patrícia, José, Rosângela, Thiago, e a todos os outros que serão sempre outros, vítimas de nós mesmos, morrendo na contramão e atrapalhando o tráfego. O que é justiça? Decidir sobre a visibilidade de cada um, higienizando o mundo? Espero qualquer coisa de um povo que não respeita sequer seu próprio representante. As vidas valem tão pouco e, com elas, os sonhos também são atropelados, pisados, apedrejados, julgados e não realizados.

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Daquilo que não precisamos (tanto)

Ao detalhe mais exato, a aparência vai se transformando. O esmalte cobre a unha antes lixada, a cutícula rasa, e fica desajeitado à mão que não escreve, só esperando secar o cintilante para seguir com os pelos e a cera quente. A pele é hidratada para a maquiagem que resseca, assim como os cabelos são preparados para o penteado endurecido. Aberto o guarda-roupa, nada que ofusca e tudo que realça o brilho da produção inteira. Em caso negativo, às vitrines com manequins, silhuetas, vestidos, sapatos, brincos.

Provadores são territórios familiares quando a procura está em brasa. Nada mais chama a atenção do que os sonhos da modelagem nos anúncios com tamanhos pequenos, médios, grandes, mas, quanto maior, melhor; ou quanto menor, melhor. Só depende saber se é o preço na etiqueta ou a medida da cintura. Leve duas peças e pague uma, ganhe cupom de prêmios, já viu como esse tecido valoriza a sua pele? Não precisa de meias, roupas íntimas, acessórios também? Por que não aproveita e leva tudo de que gostou? Não seja boba, você ficou linda em qualquer um desses! Todo mundo precisa de se sentir princesa por um dia. Imagina se eu não ia aproveitar uma oferta dessas…

Dúvidas de pegar ou largar, pagar ou deixar. A cor não deve ficar legal assim, o pano é muito quente – mas é inverno –, parecido com o outro, ou seja, não tem necessidade de levar dois, mas é promoção, vale a pena. É melhor provar novamente. Os olhos se delineiam no espelho para checagem e o corpo já quase não se reconhece mais. Investe nas pedrarias e paetês, consentindo tudo exageradamente adjetivado. Imagina-se na festa, nos comentários, nos saltos, nas poses, nas palavras glamour, chiqué, flashes, bijoux, jolie, champagne, glitter. O rosto empina-se modificando a postura e o aspecto de todo resto.

Mas é no salão de beleza onde se estabelece a diferente ordem com o mundo. De repente, sentir-se repaginada. E zelada. E detalhada. E outra? O que importa é estar narcisa completa. Encontrar-se por outras camadas da química, coloridamente contagiada por blush, sombra e verniz. O tempo escorre na água quente que relaxa o cabelo e também se vaporiza com o secador intenso. Ruídos e risadas misturam-se com as revistas de moda folheadas. As escovas com seus grampos são essências de qualquer projeto de madeixas perfeitas. Perfeição é a única palavra que compreende o resultado satisfatório desse processo. Isso porque, depois das horas todas, quer-se ir do jeito exato de uma atriz de Hollywood.

As escolhas feitas antes do grande momento são minuciosas e, mesmo assim, não se consegue nunca chegar ao ideal. É bem provável que o cogitado jamais existiu, porém ela mesma não se propõe a pensar nisso, já que precisa retocar o batom e ajeitar os anéis. Insatisfeita, prova outra roupa, coloca uma pulseira, revira o cabelo do outro lado, e admite que a hora é sempre pouca, o traje é precário e as medidas engordaram. Nem o tempo esgotado apressa a busca pela imagem primorosa: passa da meia-noite e em abóbora só se transformará no outro dia. Porque hoje ela precisa retocar o batom, ajeitar os anéis e alongar os cílios. Volta-se ao espelho para tentar aprovar finalmente a melhor vestimenta. O telefone toca, mas ela não atende porque precisa retocar o batom, ajeitar os anéis, alongar ainda mais os cílios e não pode esquecer-se, jamais se esquece de uma coisa dessas, o perfume. Então, qual perfume usar nessa ocasião, eis mais uma questão para decidir na frente do espelho, diante de si mesma e de tudo o que mais precisa como retocar o batom, escolher o vestido, ajeitar os anéis, alongar os cílios…

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Samba e água fresca

Não procurei saber qual é a data de hoje. Um dos maiores prazeres que as férias proporcionam é esquecer o dia que se vive, como um convite aos grandes desejos, então ao tempo sem ponteiros. Pensei em escrever sobre samba, ócio, Clarice ou viagens. Mas há que se reconhecer que depois de doar-se inteiramente a um trabalho, e nele estar absorta por meses, nada mais é tão formidável do que respirar. Respiro e nem o oxigênio das palavras me ajuda a terminar de escrever. Quero mesmo um stand-by de ideias, que pipocam sem esperar meu fôlego renovado.

Quero também entender que não é preciso aguardar um tempo planejado para acalmar tudo por dentro e conhecer mais de mim. Um ano sabático para viver como se sonha. Adiar o recomeço da rotina para repousar um pouco mais. Minhas férias são sagradas, mais do que nunca, mas não anulam os objetivos e, ao contrário, vestem-nos de energia. Por isso, esquecer o dia e a hora não significa sumir do mapa, nem geográfico, nem espiritual. A folga do corpo e da mente pode ser inteira, e é por isso mesmo que os planos têm de dar certo.

A lógica deve servir para o inverso: o ofício não me impede de sambar – inclusive, como canta Beth Carvalho, o samba não é exatamente aquilo que tem o dom de resolver, deixar tudo no lugar? Que assim seja, a tranquilidade. Diz-se que o trabalho tem o papel de manter a atividade humana, a existência, e, embora também acredite nisso, desfaço em mim um pensamento disseminado sobre desempenhos profissionais e sua relação com dedicar-se completamente até que tudo possa se transformar em dependência. O sujeito que vira objeto de trabalho, a tal máquina humana. Por isso, prefiro o samba e seus aliados.

E, assim, o que dizer do ócio? Nada de ócio criativo, apenas o ócio é preciso diversas vezes para esvaziar tudo o que pode esborrar a qualquer instante. Minha ideia de colocar uma rede de descanso no centro da sala de casa é estabelecer ao menos alguns minutos de ócio obrigatório. Ali, pensar em nada, nadar num oceano sem-fim, submergir-se de coisa alguma. E, depois, meditar comportamentos, tarefas, valores. E dar continuidade à vida que não é diferente de antes, somente melhor impulsionada. Por vezes, nessas ocasiões, faço-me a mesma pergunta “o que eu quero de tudo isso?”. A resposta vem como algodão pelo ar, sempre parecendo desinteressante, já que fica nos limites do frescor de um copo d’água, da leveza de uma crônica, do voo planado da gaivota de Richard Bach, de um filme açucarado ou de uma criança sorrindo. O meu eterno feijão-com-arroz que se contenta ao ler uma notícia de que o Papa reza o pai-nosso na língua guarani enquanto encerra visita à América Latina. A rotina do Papa é pregar solidariedade, seja em língua materna ou indígena. Não basta?

A paz das férias é comparada ao alívio do êxito ao aplicar um trabalho projetado. Porque não existe descanso sem o cansaço, e não pode haver produção sem a lucidez motivada pela calma e pelo sossego. É possível que o sereno seja justamente isso: uma umidade fina, fria e penetrante das estações calmosas e do céu puro, anunciando um longo dia de trabalho, sem que se perca a serenidade das decisões. Em tempos de quietação, no entanto, a interrupção não é de todo eficiente e faz rever ações passadas e futuras. Ao menos, que tudo seja refletido sem um tique-taque intermitente e ansioso que perpassa os dias mais cheios e comuns.

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A maré baixa de lágrimas enche
E o mar cresce até a margem
Levando o lixo de todos
(O nosso e das amarras da vida)
Lavando destroços e areia
Até aumentar mais o nível
Transbordar o sentido
Fazer navegar as alegrias (ou não)
Colocar nas ondas um infinito
E não secar nunca mais.
O mar também vive das gotas
E de tanto chorar está cheio
De afogar-se
(e ir a mar será
Impossível).

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Com chuva e com afeto (2)

crônica 28.06

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