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A leitura que amanhece: dia e noite invernosos

Introdução ao livro Contos e microcontos: a leitura que amanhece

Foi num outro inverno, há dois anos, quando a notícia irrompeu na minha caixa de e-mails. O autor do e-mail, especialista e veterano em autoria de outro – e melhor – tipo, talvez nem tenha se apercebido de como foi simbólico tomar conhecimento deste prêmio por meio de sua figura. Reinaldo Santos Neves, no seu ilustre papel de informador, foi simples e direto (e, portanto, surpreendente desde então): “Já está sabendo? O prêmio do edital da Secult (contos, estreante) é seu. Saiu no diário oficial de hoje. Sérgio Blank também manda um abraço”.

Arrebatadora pela forma como chegou até a mim, a notícia de que eu havia ganhado um prêmio de Literatura da Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo impressionou uma vez mais, já que se tratava da minha primeira tentativa de ser lida. A expectativa era modesta e limitada: conseguir que estes contos e microcontos fossem examinados. E ser lida por quem? Isso também passava longe de qualquer atenção. Somente um ano depois me veio a descoberta de que Bernadette Lyra compunha a comissão selecionadora deste processo. E, nesse ano de 2012, durante mais um inverno, conheci o cativante sorriso de Bernadette, a me confirmar mais essa declaração. Sublime. Formidável.

Com a categoria estreante, então, eu levava comigo dois invernos calorosos porque inesperados. E é de se abismar que, no momento em que escrevo este texto, mais um inverno acontece nesta Ilha de Vitória. É de se abismar, pois foi num abismo que caíram os contos e microcontos (numa funda hibernação de três invernos) desde as honras até a sua publicação. Comecei a acreditar piamente que um texto, quando guardado por muito tempo, passa a respirar sozinho. Se a gaveta não for aberta algumas vezes – a fim de que se reconheça o não-aprisionamento da palavra, a renovação dos ares – o texto asfixia-se. Mas a literatura, como diz Silviano Santiago, é um jardim, no qual o escritor trabalha “a escolha consciente diante de cada bifurcação”. E, apesar de todas as bifurcações desses poucos e pequenos contos, eles continuam nestas páginas tais como eram no começo de tudo. No começo dos começos, naquele primeiro inverno, o jardim pelo qual esta autora passeava era um. De lá para cá, como o leitor pode imaginar, folhas e flores caíram, nasceram e cresceram em galhos também novos.

Aqui, a autora-aprendiz deixou que o dia fosse noite e que a noite nunca fosse dia; tantos são os poucos contos divididos por turno neste espaço. Não se sabe quais segmentos pertencem a um ou a outro. E que dizer das tardes? Elas não existem dentro das palavras…

Sarah Vervloet

Vitória, inverno de 2013.

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