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Para temer

Em 2012, à época das Olimpíadas de Londres, esbarrei em Michel Temer em uma galeria chiquérrima da capital inglesa. Eu estava a passeio, com poucos tostões no bolso para voltar para casa. Ele estava a negócios, mas deu uma passadinha na loja mais cara que havia para levar uma bolsa a sua esposa bela, recatada e do lar. Foi o que me disseram seus assessores na escada rolante do pequeno shopping.

Subia a escada quando ouvi homens engravatados falando o Português. Virei-me e fui surpreendida por um deles, perguntando-me se eu era brasileira, uma vez que reconhecera o diálogo atrás de mim. Com a minha afirmativa, ele prosseguiu dizendo que, portanto, eu saberia quem estava ali naquele momento. Senti-me um pouco pressionada para saber de quem se tratava, embora nenhum deles me parecesse familiar. Mais à frente, havia um homem rodeado por todos os outros. Mais próxima, pude reconhecer o tal vice-decorativo da presidenta. O assessor, que me repudiava por demorar tanto a reconhecer o vice-presidente de meu país, se despedia, pois não podia ficar batendo papo em serviço. Apenas comentou que estavam ali para comprar uma bolsa.

Continuei passeando e esbarrei, novamente, em Michel Temer escolhendo a bolsa. De tantas coisas a serem ditas, nada disse. Isso porque ele nada era, nunca foi. Eu quase me esquecera desse “encontro”, afinal. No entanto, os últimos dias têm provocado convulsões tantas que até minha cabeça tende a explodir: lembrar e relembrar, esquecer e ignorar certos pessimismos – eis o meu exercício.

Estar presidente não significa muita coisa, ainda. Mas se eu pudesse prever o futuro, saberia cada palavra pronunciada naquela loja de bolsas. Não enviaria cartas e nem treinaria meu discurso na rede social. Talvez dissesse apenas o que já se sabe, mas não custa repetir. Aliás, a repetição é importante para acreditarmos na narrativa, assim como se repete aos quatro cantos midiáticos de que o governo interino vem para retomar o sono tranquilo e o sonho esperançoso de todos nós. Mesmo que para isso certas atitudes cabrestas tenham de ser tomadas.

Eu tentei fingir que nem era brasileira quando avistei brasileiros engravatados. Defesa instintiva de quem se deparou com brasileiros mal educados lá fora e, naquele momento, estava diante de um conglomerado sem identidade política que se diz um partido. São e serão apenas um instrumento desse jogo sujo, claro. Era vergonha, não preciso mentir. Poderia ser um sexto sentido, à moda inglesa do século vinte, avisando “keep calm and carry on”. E foi o que eu fiz, segui em frente.

Por fim, o que ecoa ainda dessa lembrança é o comentário de um dos assessores depois que me descobriu na escada, alertando os demais a terem “cuidado com o que se diz, já que podem brotar brasileiros em qualquer lugar”. Pois é. Guardo desse dia um sentimento ambíguo, afinal. Gostaria de ter escutado qualquer informação sigilosa dos seus comparsas. Mas adoro saber que atrapalhei uma conversa em segredo. Sigamos neste atropelo porque o que importa é incomodar. Ai daqueles que cruzarem este caminho novamente.

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4 comentários em “Para temer

  1. Olá Sarah. Gostei muito do seu blog e recomendei para algumas amigas que também gostaram, uma até reclamou dizendo que eu deveria ter tirado foto também ao seu lado quando contei como a conheci, ela é muito ligada em registro fotográfico. Acontece que nem precisava dela falar isso porque eu mesma, quando cheguei em casa, pensei que deveria ter pedido um foto, alias uma foto na fila com aquele grupo que surgiu conversando teria ficado bacana também, mas naquela ansiedade de ver o professor o momento passou. Você escreve muito bem, seus textos são bem bonitos. Tive até um pouquinho de inveja dessa jovem escritora talentosa … rs .
    Sucesso sempre.
    Um abraço, Ana Maria O. Fernandes

    • Oi, Ana! Que bom que gostou dos textos. Eu ainda tenho muito para aprender. Assim que eu retornar a São Paulo, podemos combinar um café e aí tiramos a foto. Levo um livro meu pra você também. Fico feliz pela sua divulgação do meu Blog! Vou tentar publicar mais nele… Grande abraço!!!

      • Oi, Sarah. Gostei muito da ideia de combinarmos um café e você tão gentilmente me trará também seu livro… nossa fiquei muito feliz e é claro que vou querer um autógrafo além da foto. Voltei esses dias lá na livraria cultura pra comprar outro livro, considero aquela livraria maravilhosa, quando vou na reunião do sindicato, que também é lá no centro, quase sempre passo por lá. Um ótimo domingo pra você e boa semana. Um abraço, Ana

  2. Vamos marcar na livraria então, Ana. Vou a São Paulo em breve, mas terá que ser muito rápido, eu acho. Quando eu for com mais calma, certamente nós vamos nos ver. Abraços.

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