2 Comentários

Estar nas ruas

É a angústia que preenche a vontade de estar nas ruas em um momento como este. Há três dias, tenho cautela ao escolher a cor da minha roupa. Entre outras coisas que li nos meus livros de história ou que meu pai e meus professores fizeram questão de relatar sobre os anos da ditadura – há o que esteja acontecendo agora. Estar nas ruas neste momento exige escolher um lado, mesmo tendo certeza de que você não aprova lado algum. Isso porque, embora eu prefira estar de um desses lados, hoje isso não parece dizer nada. Os discursos que me esvaziaram e o ódio generalizado que me entristece só provocam desânimo. Estar nas ruas agora é querer não esquecer que, além de tudo, é preciso lutar por alguma causa. Quando refleti mais dedicadamente sobre isso, percebi apenas que a minha causa é a justiça para todos e não só para uns.

Acontece que isso é praticamente unânime – lutar pela democracia, direitos iguais, justiça e igualdade. O problema só pode estar naquilo que se interpreta disso tudo, naquilo que se relativiza, naquilo que se quer enxergar. Por isso, dois lados. Um obscuro, outro mais claro. Um oblíquo, outro aprumado. Um inverso, outro anverso. O maniqueísmo detonador e indigesto que nos confunde até perder de vista, literalmente.

Mas, ainda assim, acreditei e acredito ser preciso ir em frente, como com tudo nesta vida. E fui, temerosa pelo que viria (ainda pelo que virá), às ruas. Mesmo vivendo em um Estado conservador, onde escolas são fechadas e com isso a população pouco se comove, percebi um apelo muito grande e positivo por tomar as ruas contra o pensamento instituído aqui e na maioria das cidades brasileiras, que é a destituição de um poder legítimo. Ao que todos concordem que, caso haja crime comprovado, a punição seja feita conforme a letra da lei. A questão é: de que lei estamos falando? Ninguém mais sabe.

O governo atual, caso esteja em seu fim, já posso dizer que deixou um legado. Entre seus ganhos um deles é, sem dúvida, o despertar de consciência que boa parte da população nunca teve. No entanto, qualquer ideia começa rígida, e tende a ser lapidada, qualquer uma. Eis que talvez seja esse nosso desafio. Também por isso, estive nas ruas vestindo branco. Não é dúvida, é medo. De qualquer que seja o olhar, o erro, a culpa, o dedo apontado, a cobrança vinda de dentro. Quando as cores da bandeira se tornaram uma escolha ou o vermelho terminou por ser o seu oposto, parei para pensar apenas sobre cores. Será isso mesmo?

Irrigada de questões, gritei. Aplaudi, contestei. Foi inebriante tomar a avenida fazendo eco por toda ela. Mais ainda escutar vaias, provocações, palavrões e gestos respondidos por pedidos de paz, sopro de beijos e as mãos em forma de coração. Arrepiante. Porque depois de presenciar tantas manifestações de ódio de todos os lados, qualquer atitude de bem impressiona. Repito: de todos os lados.

Voltei com tantas outras questões no dorso. Argumentar daqui ou de lá tem de ser válido, mas com o pouco respeito que nos resta fica terminantemente difícil sorrir como se nada estivesse nos afetando. Estar nas ruas, então, é uma resposta a tudo isso, como sempre foi. Escolher em que dia nela estar é a chave que abre portas e mais portas de discussão. O quanto isso vale agora? Não estamos certos, ninguém mais está.

Anúncios

2 comentários em “Estar nas ruas

  1. Sem querer escolher lados, fui levado a escolher um…e ele é da cor do amor!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: