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Pouca mala

A poltrona de espera não é nada confortável. Pior do que isso, é dar-se conta de que o tempo pinga em conta-gotas: ficarei por muito mais. Dormir no aeroporto pode parecer pouco, mas a sensação de gente indo e vindo e entrando e saindo e passando é de angustiar. Porque se quer ir também, mas ainda há um longo tempo à frente. Descubro-me nas palavras, nas folhas viradas do livro chegando ao fim, da criança que passa acenando, das pernas dormentes apoiadas na mala. O que carrego também não é nada.

Adoço a saliva porque ao menos algo de agradável deve haver aqui. As línguas todas faladas, docemente ou não, continuam sendo minha preferência nos lugares de trânsito. Mesmo que somente os sotaques se transformem, escutar é sempre uma surpresa. O que eu não desejo é ter de escutar rodinhas arraiando o chão, o que é inevitável. Outro incômodo: a bateria do celular está para me deixar. Por que não trouxe meu bloco de notas? Procuro um guardanapo, não adianta, devo procurar uma tomada – que, aliás, é o que a metade dos que esperam está fazendo, procurando tomadas. Espero que, um dia, exista uma tomada para cada assento. Eis um tipo de escravidão. Basta entender que, no final, seja no embarque ou no desembarque, o que tem que ir conosco é muito pouco. E o que fica é menos ainda. 

 

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