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E-book completo de A superfície do mundo

Leia A superfície do mundo:

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Segunda-feira

Acordo desperta, como se não fosse segunda.
Acordo ainda um sentimento de remorso – é um passado tão distante
como desculpar-me comigo mesma pela lembrança?
Necessitou-se revirar o inconsciente?
De que maneira? Dessa mesma que me abre os olhos no susto?
Teria eu sonhado com os escombros de mim a ponto de reviver tudo,
um arrependimento meio fino e meio mudo
lá dos confins de uma infância pouco coerente até então?
Até então por que estaria diante de epifanias caídas em gotas
de fogo no céu, como se me queimassem – pouco a pouco?
Busco fontes, endereços, fotos, nada me diz qualquer coisa.
Afogo-me nas gotas ainda mais, que vão queimando partes,
despedaçando peles, encobrindo a cara de cansaço insone.
Piso forte no caminho e marco no relógio o tempo da corrida
já que tenho anestesia até nos olhos, nos pelos, nos tênis.
Não tenho mais nada porque não me cabe, transbordo, enfrento,
nem choro e quero e tento a vida após essas pequenas mortes.
O chocolate, por exemplo, que aqui dissolve amargo na língua
não significa nada, mas, diante do corpo ensopado de mais amargo,
deixo o dia sem saída: arranco a página da agenda, engulo como
gafanhoto vivo que luta, bate as asas e desfaz a linha de partida.

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Para temer

Em 2012, à época das Olimpíadas de Londres, esbarrei em Michel Temer em uma galeria chiquérrima da capital inglesa. Eu estava a passeio, com poucos tostões no bolso para voltar para casa. Ele estava a negócios, mas deu uma passadinha na loja mais cara que havia para levar uma bolsa a sua esposa bela, recatada e do lar. Foi o que me disseram seus assessores na escada rolante do pequeno shopping.

Subia a escada quando ouvi homens engravatados falando o Português. Virei-me e fui surpreendida por um deles, perguntando-me se eu era brasileira, uma vez que reconhecera o diálogo atrás de mim. Com a minha afirmativa, ele prosseguiu dizendo que, portanto, eu saberia quem estava ali naquele momento. Senti-me um pouco pressionada para saber de quem se tratava, embora nenhum deles me parecesse familiar. Mais à frente, havia um homem rodeado por todos os outros. Mais próxima, pude reconhecer o tal vice-decorativo da presidenta. O assessor, que me repudiava por demorar tanto a reconhecer o vice-presidente de meu país, se despedia, pois não podia ficar batendo papo em serviço. Apenas comentou que estavam ali para comprar uma bolsa.

Continuei passeando e esbarrei, novamente, em Michel Temer escolhendo a bolsa. De tantas coisas a serem ditas, nada disse. Isso porque ele nada era, nunca foi. Eu quase me esquecera desse “encontro”, afinal. No entanto, os últimos dias têm provocado convulsões tantas que até minha cabeça tende a explodir: lembrar e relembrar, esquecer e ignorar certos pessimismos – eis o meu exercício.

Estar presidente não significa muita coisa, ainda. Mas se eu pudesse prever o futuro, saberia cada palavra pronunciada naquela loja de bolsas. Não enviaria cartas e nem treinaria meu discurso na rede social. Talvez dissesse apenas o que já se sabe, mas não custa repetir. Aliás, a repetição é importante para acreditarmos na narrativa, assim como se repete aos quatro cantos midiáticos de que o governo interino vem para retomar o sono tranquilo e o sonho esperançoso de todos nós. Mesmo que para isso certas atitudes cabrestas tenham de ser tomadas.

Eu tentei fingir que nem era brasileira quando avistei brasileiros engravatados. Defesa instintiva de quem se deparou com brasileiros mal educados lá fora e, naquele momento, estava diante de um conglomerado sem identidade política que se diz um partido. São e serão apenas um instrumento desse jogo sujo, claro. Era vergonha, não preciso mentir. Poderia ser um sexto sentido, à moda inglesa do século vinte, avisando “keep calm and carry on”. E foi o que eu fiz, segui em frente.

Por fim, o que ecoa ainda dessa lembrança é o comentário de um dos assessores depois que me descobriu na escada, alertando os demais a terem “cuidado com o que se diz, já que podem brotar brasileiros em qualquer lugar”. Pois é. Guardo desse dia um sentimento ambíguo, afinal. Gostaria de ter escutado qualquer informação sigilosa dos seus comparsas. Mas adoro saber que atrapalhei uma conversa em segredo. Sigamos neste atropelo porque o que importa é incomodar. Ai daqueles que cruzarem este caminho novamente.

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Das (des)vantagens de ser chata

 

Não tem jeito: chegamos a um momento social-histórico-político-filosófico que provoca as piores – ou melhores, depende do ponto de vista – discussões. Mentira. Isso já deve acontecer há muito tempo. Porém, agora, com a potencialização das redes sociais, tudo se tornou absolutamente passível de discussão a qualquer tempo. E é impossível que haja isenção pessoal em algumas das oportunidades de trabalhar o próprio discurso. Você pode até resistir a uma ou outra conversa, deixar sua opinião de lado ou pra depois, mas há de haver a hora de se impor.
Menos por ideologia que por discordância por qualquer motivo, a língua coça, os dedos tremem, a ansiedade aumenta. O acúmulo de ódio, por muitos. Mas é a hora de dizer “espera aí, foi isso mesmo que você disse?”. Frases e frases vomitadas diariamente podem ser rebatidas assim, assado, mas, a depender do teor da má intenção e indução, precisam deixar de ser ditas. Daí, o mundo deixa de ser tão legal, tão divertido, tão bacana. Uma tristeza sem fim para quem gosta de fazer o papel engraçado e se vale, por causa disso, dos oprimidos como instrumento, bem como dos vastos discursos cuspidos com o veneno do preconceito.
Muita gente largou disso. Gostava, não gosta mais. De disseminar esses discursos, digo. Isso porque deixar de pensar, de fato, já é exercício muito poderoso que um dia, quem sabe, consegue êxito. Mas por que deixava? Porque o mundo está realmente muito chato. Tudo o que se fala é relativizado, discutido, problematizado. Quanta gente sem nada pra fazer! Ou pior: quanta gente sem senso de humor! Mal conseguem rir com aquela piada de preto no barraco, de mulher no volante ou de viado escandaloso. É, realmente, uma chatice viver assim.
Se esse gostar está agora no pretérito pra muita gente que se justifica no blábláblá e mimimi; se não há mais graça em contar piada, zoar o amigão; a vitória do banimento de discurso já é muito, ao menos utopicamente. Os sem-vozes, sem dúvida, resolveram falar. E, falando, desencadeiam uma série de outras falas e discussões. Ir a fundo no debate é muito doloroso? Tudo bem. O silêncio é, ainda, a melhor opção quando se precisa refletir. Mas deixe-nos falar. Os chatos e mimimizentos somos insistentes quando se é preciso pensar nos inúmeros discursos que se formaram e nos formaram ao logo de deste caminho. Até aqui, tanta coisa deixada pra trás. Como ficar quieto diante dos problemas? Aprendi que enfrentamento é a palavra. Se isso é ser chato, que assim seja. Amém.

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Estar nas ruas

É a angústia que preenche a vontade de estar nas ruas em um momento como este. Há três dias, tenho cautela ao escolher a cor da minha roupa. Entre outras coisas que li nos meus livros de história ou que meu pai e meus professores fizeram questão de relatar sobre os anos da ditadura – há o que esteja acontecendo agora. Estar nas ruas neste momento exige escolher um lado, mesmo tendo certeza de que você não aprova lado algum. Isso porque, embora eu prefira estar de um desses lados, hoje isso não parece dizer nada. Os discursos que me esvaziaram e o ódio generalizado que me entristece só provocam desânimo. Estar nas ruas agora é querer não esquecer que, além de tudo, é preciso lutar por alguma causa. Quando refleti mais dedicadamente sobre isso, percebi apenas que a minha causa é a justiça para todos e não só para uns.

Acontece que isso é praticamente unânime – lutar pela democracia, direitos iguais, justiça e igualdade. O problema só pode estar naquilo que se interpreta disso tudo, naquilo que se relativiza, naquilo que se quer enxergar. Por isso, dois lados. Um obscuro, outro mais claro. Um oblíquo, outro aprumado. Um inverso, outro anverso. O maniqueísmo detonador e indigesto que nos confunde até perder de vista, literalmente.

Mas, ainda assim, acreditei e acredito ser preciso ir em frente, como com tudo nesta vida. E fui, temerosa pelo que viria (ainda pelo que virá), às ruas. Mesmo vivendo em um Estado conservador, onde escolas são fechadas e com isso a população pouco se comove, percebi um apelo muito grande e positivo por tomar as ruas contra o pensamento instituído aqui e na maioria das cidades brasileiras, que é a destituição de um poder legítimo. Ao que todos concordem que, caso haja crime comprovado, a punição seja feita conforme a letra da lei. A questão é: de que lei estamos falando? Ninguém mais sabe.

O governo atual, caso esteja em seu fim, já posso dizer que deixou um legado. Entre seus ganhos um deles é, sem dúvida, o despertar de consciência que boa parte da população nunca teve. No entanto, qualquer ideia começa rígida, e tende a ser lapidada, qualquer uma. Eis que talvez seja esse nosso desafio. Também por isso, estive nas ruas vestindo branco. Não é dúvida, é medo. De qualquer que seja o olhar, o erro, a culpa, o dedo apontado, a cobrança vinda de dentro. Quando as cores da bandeira se tornaram uma escolha ou o vermelho terminou por ser o seu oposto, parei para pensar apenas sobre cores. Será isso mesmo?

Irrigada de questões, gritei. Aplaudi, contestei. Foi inebriante tomar a avenida fazendo eco por toda ela. Mais ainda escutar vaias, provocações, palavrões e gestos respondidos por pedidos de paz, sopro de beijos e as mãos em forma de coração. Arrepiante. Porque depois de presenciar tantas manifestações de ódio de todos os lados, qualquer atitude de bem impressiona. Repito: de todos os lados.

Voltei com tantas outras questões no dorso. Argumentar daqui ou de lá tem de ser válido, mas com o pouco respeito que nos resta fica terminantemente difícil sorrir como se nada estivesse nos afetando. Estar nas ruas, então, é uma resposta a tudo isso, como sempre foi. Escolher em que dia nela estar é a chave que abre portas e mais portas de discussão. O quanto isso vale agora? Não estamos certos, ninguém mais está.

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Pouca mala

A poltrona de espera não é nada confortável. Pior do que isso, é dar-se conta de que o tempo pinga em conta-gotas: ficarei por muito mais. Dormir no aeroporto pode parecer pouco, mas a sensação de gente indo e vindo e entrando e saindo e passando é de angustiar. Porque se quer ir também, mas ainda há um longo tempo à frente. Descubro-me nas palavras, nas folhas viradas do livro chegando ao fim, da criança que passa acenando, das pernas dormentes apoiadas na mala. O que carrego também não é nada.

Adoço a saliva porque ao menos algo de agradável deve haver aqui. As línguas todas faladas, docemente ou não, continuam sendo minha preferência nos lugares de trânsito. Mesmo que somente os sotaques se transformem, escutar é sempre uma surpresa. O que eu não desejo é ter de escutar rodinhas arraiando o chão, o que é inevitável. Outro incômodo: a bateria do celular está para me deixar. Por que não trouxe meu bloco de notas? Procuro um guardanapo, não adianta, devo procurar uma tomada – que, aliás, é o que a metade dos que esperam está fazendo, procurando tomadas. Espero que, um dia, exista uma tomada para cada assento. Eis um tipo de escravidão. Basta entender que, no final, seja no embarque ou no desembarque, o que tem que ir conosco é muito pouco. E o que fica é menos ainda. 

 

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